JABULÂNIA F. C.

1299 Florzinhas cotidianas
TRÊS HISTÓRIAS:
SIMBOLOGIAS (n. 58)
No futebol o goleiro simboliza, bem como numa família tradicional, a Mãe, pelo fato de guardar seus filhos – os dez jogadores – dos males externos, ou seja, de onze malvados, simbolizados pelos jogadores contrários. E o seu papel eminentemente matriarcal fica evidente no carinho especial que todos nutrem pelos goleiros de quaisquer equipes: seja ela a equipe dos amigos do Barrigudos Bar, seja ela a equipe dos amigos de escritório, ou numa simples pelada dos moleques da rua: o goleiro tem lugar especial no meio da turma. E mesmo se leva um frango simplesmente inacreditável, pavoroso, sem explicação, o goleiro ainda é o goleiro, e todos o protegem. Ora, quem não proteje a mãe ?
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FEIRA MODERNA
Feira moderna que se preza tem antigas peças ou móveis de madeira ou de ferro, de cobre e estanho, de vidro e cristal, tendo mil e um jeitos de nos levar ao inferno prazeroso das formas, cores, sons, cheiros e preços; lá tem lugar pra se assentar, mas não jeito de fugir dos chatos, tem cafezinho e cachacinha servidos gratuitamente – uma parada para provar. Tem palhaços contratados – fora os palhaços naturais, aos montes, sim, uma feira moderna boa tem discos antigos (vi um de nome Feira Moderna, do querido Beto Guedes, e o levei, embora custasse os tubos, nas nuvens, aliás, com razão), tem periquitos, peruas, gatos escaldados e gatas de botas, tem abelhinhas no espelho retocando boca e cílios e sorrindo maldades, tem música ao vivo, fonte artificial e telas de natureza morta ou algo parecido com pintura abstrata, yes, tem gente que habla inglês e speak grego, macedôniamente, numa feira moderna não há só o óbvio e ululante de feiras comuns: há sempre algo diferenciado: um novo objeto do riso e do enquecimento, manuais tântricos, embolias sexuais e outros manuais culinários estão lá, oui, numa feira moderna tu deves por os pés pelas mãos, botar os pés onde mão nenhuma foi – como diria o autor de The Cantos, o poeta Ezra Pound.
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CIGARRO, CHUVA, PALAVRÃO E SEMINUDEZ VESTIDA DE AZUL
Soltou um palavrão de tamanho médio quando a chuva e o vento apagaram-lhe o cigarro, debaixo da mesma marquise onde eu me escondia da chuva, esperando estiasse, talvez esperando a vida passar, e não me contive e soltei uma gargalhada quase do tamanho da madrugada, e então ela soltou um palavrão do tamanho grande (aquele tamanho GG das roupas) em direção a mim, cuja única alegria na vida, até aquele então, era rir de vez em quando. Tiritando sob a marquise, devido a estar vestida com uma seminudez azul, um belo vestido, costas nuas, ela xingava o cigarro apagado por vento e chuva. Até que o táxi chegou, e ela ficou livre de mim, mas não da madrugada. O Diabo apareceu e me ofereceu uma capa de chuva. Bom garoto.
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